19 de abril de 2017

Como gerar suspense (ou outras emoções...) em seus textos com a técnica do Palco

m 2011 publiquei aqui no Vida de Escritor um post com este mesmo título, onde eu apresentava algumas dicas de como trabalhar emoções em seu texto, em especial a geração de suspense. O post continua sendo bem interessante, confira aqui.
Atendendo a pedidos, retomo o assunto com uma dica mais, digamos, "profissional", para aprofundar o assunto. Mais especificamente, vou falar sobre a técnica do "palco", que pode ser usada para aumentar o suspense ou para gerar uma emoção crescente no leitor, começando com dicas sutis que evoluem de forma crescente até algo explícito.  
Para entender melhor esta técnica, imagine que a forma como você escreve a história cria um "palco" na mente do leitor, como se fosse um palco de teatro onde ele observaria a história se desenrolando.
O palco tem diversos níveis de profundidade, e quanto mais perto do leitor, mais o leitor se lembra de "ter visto" (ou lido, no caso) a cena em questão.
“No palco criado por sua história, o que está em primeiro plano se ressalta. Coloque no fundo os detalhes que quer esconder do leitor.”
O bom escritor utiliza o palco colocando ao fundo as primeiras pistas de algo que vai ocorrer mais para frente, e em primeiro plano algo para "distrair" o leitor destas pistas.  Por exemplo, quando o criminoso está ao fundo, em primeiro plano você coloca um suspeito que se destaque. Ou, ainda, o interesse amoroso que vai culminar em uma relação ardente aparece em segundo plano, enquanto à frente colocamos alguém que distrai a atenção do leitor e do protagonista. 
E como fazer isso? A forma mais simples de fazer isso é simplesmente dar mais destaque, dar falsas pistas e escrever mais sobre o que será a distração, que assim vai parecer mais chamativa ao leitor. Esta técnica é conhecida como "Red Herring", ou "arenque vermelho": algo que se destaca do cardume. Se você fala inglês, veja um pouco mais sobre isso no artigo da Wikipedia sobre Red Herring.  Basicamente, neste caso, estamos falando de um palco criado pelo conteúdo que você escreve, e que tem duas profundidades: O arenque vermelho e todos os demais arenques.
O maior "segredo", no entanto, é como fazer isso de forma eficaz, na maneira como você escreve, indo além do conteúdo. Com a forma você consegue quatro "níveis de profundidade" no palco:
  • Primeiro plano: Ações. O que o personagem FAZ fica marcado fortemente na memória do leitor.
  • Segundo plano: Diálogos. O que o personagem DIZ fica marcado na memória do leitor, mas um pouco menos do que suas ações.
  • Terceiro plano: Narração.  Quando o narrador MOSTRA a história acontecendo, descreve algo, isso fica menos marcado na memória do leitor que os diálogos.
  • Quarto plano: Listas. Quando o narrador CONTA o que aconteceu, sem mostrar, usualmente na forma de uma lista de acontecimentos que decorreram em outro lugar, ou mesmo uma lista de objetos ou personagens envolvidos em algo, o leitor irá lembrar menos ainda.
Utilizando todos os níveis de profundidade do palco, você consegue muito mais sutilmente "enganar" o leitor e esconder, à plena vista, as pistas que quiser. 
Para tornar mais clara esta técnica, vejamos um exemplo:
Digamos que você deseja escrever uma cena onde um detetive se aproxima do local de um crime e precisa passar por uma multidão.  Você quer que o detetive "esbarre" no criminoso durante esta passagem, mas não quer que isso fique explícito para o leitor.
  • Quarto plano: O detetive se aproxima do local do crime, e vê que a multidão é composta por curiosos de todos os tipos: um jovem negro com um skate na mão, uma senhora beirando os oitenta anos, com um chapéu com penas, um homem engravatado com uma mochila vermelha nas costas, uma freira encurvada sobre um terço...
  • Terceiro plano:  O detetive entra na multidão e avança passo a passo. Pensando que o criminoso sempre retorna ao local do crime, começa a observar se alguém se destaca. Vê um sujeito com uma barba espessa esticando o celular acima da multidão, tentando tirar uma foto do cadáver.
  • Segundo plano: Quase chegando à grade de contenção colocada pela polícia, o detetive para alguns momentos à frente de um cadeirante para observar a multidão. O cadeirante reclama: "Com licença, o senhor poderia chegar um pouco para o lado?".  "Me desculpe, não percebi que estava bloqueando a vista. Já estou saindo".
  • Primeiro plano: Ao tentar chegar perto do portão, o detetive pisa no pé de um homem alto e gordo. O grandalhão o empurra de encontro à grade. "Ei, mermão, qualé a sua? Quer chegar por último e ficar na área VIP? Sai da frente!". O detetive coloca a mão no casaco para sacar o distintivo e o homem segura seu pulso com força, dizendo: "Você não é louco de puxar uma arma no meio da multidão, é?".  O detetive responde que é da polícia e vai mostrar o distintivo, e o outro libera sua mão, pedindo desculpas.
Quando o leitor chega ao primeiro plano, ele nem recorda mais sobre o que aconteceu no quarto plano; mas mais tarde, quando um terço for encontrado perto da segunda vítima, ele vai recordar que havia uma freira no meio da multidão, lá no quarto plano do palco...

Entendeu, ficou com alguma dúvida, quer explorar este ou outros assuntos?
Comente e compartilhe com os colegas!

E não esqueça que isso e muito mais você encontra n'A Bíblia do Escritor, em versão impressa ou
para ler em seu Kindle



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30 de março de 2017

7 coisas que aprendi, com cinco autores compartilhando suas experiências!

"7 Coisas que aprendi" é uma iniciativa conjunta* entre os blogs Escriba Encapuzado e Vida de Escritor, onde T.K. Pereira e Alexandre Lobão convidam escritores e outros profissionais do mercado livreiro e literário para compartilharem suas experiências com os colegas de profissão, destacando sete coisas que aprenderam até hoje. 
Sempre é bom lembrar que lançamos um e-book com 61 contribuições de escritores e profissionais do mercado.  E estamos agora juntando contribuições para a próxima edição!  Então, se você é escritor iniciante ou veterano, se escreve poesias, contos, romances ou biografias, se é editor, capista, ilustrador, revisor, agente literário ou mesmo um leitor ávido com algo para compartilhar sobre o mercado literário, não perca tempo e envie sua contribuição para esta série de artigos!
Estou me organizando para retomar as publicações aqui no Vida de Escritor, com algumas novidades, e enquanto isso gostaria de divulgar as contribuições mais recentes para este série, publicadas no Escriba Encapuzado:
  • Paulino Júnior, autor do premiado livro de contos Todo maldito santo dia e do livro-conto Bife a cavalo.
  • Matheus Arcaro, professor, artista plástico e autor do livro de contos Violeta velha e outras flores (Patuá, 2014) e do romance O lado imóvel do tempo (Patuá, 2016).
  • Kátia Mello-Gerlach, autora dos livros Colisões Bestiais (Particula)res, Forasteiros e Forrageiras de Jade.
  • Alexandre Brandão, autor de livros de crônicas e de contos e vencedor do “Bolsa do Autor”, da Funarte, em 2000.
  • André Roca, jornalista e escritor publicado no livro Onisciente Contemporâneo.
Entre os próximos posts, atendendo a pedidos feitos por email e em comentários aqui no blog, estarei falando sobre como gerar tensão, pontos de virada e outras diferenças entre histórias focadas no personagem (character-driven) e na trama (plot-driven), e como criar personagens com níveis de profundidade. 
Lembro que estes e outros assuntos, com muito mais profundidade, podem ser vistos no meu livro A Bíblia do Escritor, disponível em  versão impressa ou para ler em seu Kindle.

* Projeto inspirado pela coluna “7 Things I’ve Learned So Far”, da revista Writer’s Digest.

Veja a opinião de outros autores no  Vida de Escritor e no Escriba Encapuzado.
Até o post que vem - e enquanto isso pensem em SUAS 7 coisas e enviem suas contribuições

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25 de janeiro de 2017

Como construir uma carreira de Escritor

C
aros, sei que estou sumido aqui do Vida de Escritor, mas a meu favor devo dizer que estou vivendo um período sabático, de reestruturação de minha vida e meus rumos, de redescoberta de meu amor e de minha família, depois de um período muito grave de perda e dor.

Hoje, acredito que cada um deva descobrir seu próprio caminho para o sucesso, até porque o sucesso é algo que deve ser definido por cada um. "Fama" e "Dinheiro" não apenas não são equivalentes a sucesso, como também não representam o que a maioria das pessoas, inconscientemente, acredita ser o sucesso. São, quando muito, consequências, mas nem todo sucesso vem seguido de fama ou de fortuna.

Sucesso, para mim, é fazer o que acredita, o que gosta. É acreditar do fundo do coração que você está dando o melhor de si para tornar o mundo um lugar melhor. É lutar contra qualquer tipo de preconceito, é batalhar para que todos tenham as mesmas oportunidades, é expor e lutar contra as maldades do mundo, contra aqueles que só se realizam ganhando dinheiro ou rebaixando os outros para que se sintam maiores ou mais importantes.

Em um mundo em que cada vez mais parece haver uma reação contra os direitos daqueles que têm cores diferentes, ou que rezam de forma diferente para o mesmo Deus (até porque acredito que haja um só...), contra aqueles que têm orientações sexuais diferentes ou que, simplesmente, pensam diferente, é obrigação de todos os que têm a mente mais aberta de lutar por um mundo mais justo.

Quando digo "lutar", não quero dizer que seja levar isso ao extremo da luta armada - embora esta por vezes se torne inevitável - mas sim dizer que devemos usar nossas armas: as palavras.

Paus e pedras quebram ossos, mas apenas palavras transformam pessoas.

Se você quer construir uma carreira como escritor, no meu estado atual de maturidade, só posso lhe dar dois conselhos:

1) Estude e pratique, muito. Aqui no Vida de Escritor dou muitas dicas de como se profissionalizar como escritor, e no livro A Biblia do Escritor dou um passo a passo, com exercícios, para aqueles que desejam levar a sério esta profissão.  E qualquer dúvida estou sempre disponível por comentários aqui no blog ou e-mail.

2) Seja verdadeiro. Escreva sobre o que você acredita, com todo seu coração, toda sua alma. Você pode estar escrevendo Ficção Científica, Fantasia, Romances com cunho histórico ou Comédia; mas se você for verdadeiro, suas palavras irão trasnformar as pessoas e ajudar a criar um mundo melhor.

Contra o fogo, só a água ajuda. Contra a ânsia de dominação e de busca pela superioridade (racial, social, sexual ou o que quer que seja), só o exemplo de respeito e igualdade ajudam.
Porque não é só questão de respeitar o diferente.
É questão de entender que PRECISAMOS do diferente, de louvar o diferente, pois a riqueza de qualquer sociedade está justamente nas diferenças que ela abriga.


Vale reforçar que apesar de estar publicando pouco por aqui, tenho respondido a todas as dúvidas, sejam em comentários no blog ou por email. Não se calem! ;)








17 de novembro de 2016

Tudo o que você gostaria de saber sobre como escrever e publicar um livro mas não tinha para quem perguntar


E
m 2010 produzi uma primeira versão de um livro chamado provisoriamente de "Tudo o que você gostaria de saber sobre como escrever um romance pronto para o sucesso mas não tinha para quem perguntar". 
Cheguei, na época, a escrever um post com uma lista de livros que apresentavam orientações sobre como escrever um livro, publicado com o título de Tudo o que você queria saber sobre como escrever um livro, onde eu mencionava este meu futuro trabalho.
De lá para cá foram quase 6 anos de aprendizado, de crescimento como ser humano e como escritor. Neste tempo, além de ultrapassar a barreira dos 10 livros publicados (hoje são 12 livros publicados, sem contar os 6 livros técnicos e participações em múltiplas coletâneas), apresentei 11 edições do Workshop de Escrita de Ficção, sendo 8 destas abertas para o público em geral.
Neste tempo, minhas certezas sobre o que é necessário para escrever, sobre como conseguir uma editora, sobre as diferentes formas de se publicar o livro e as maneiras de divulgá-lo sofreram grandes mudanças, deixando em no lugar apenas uma grande certeza: O que e escrito sem esforço, geralmente é lido sem prazer.
A frase é de Samuel Johnson, e a primeira vez que a ouvi foi dos lábios do atual editor da Trampolim, Victor Tagore, que na época era editora da Thesaurus editora.
“O que é escrito sem esforço, geralmente é lido sem prazer”  
Samuel Johnson, escritor, poeta, ensaísta e crítico literário inglês do século XVIII
Em meu livro sobre técnicas de escrita, que assumiu o título de "A Bíblia do Escritor" agora que foi publicado, busquei refletir esta certeza da melhor forma possível: mostrando que não há uma forma certa de escrever um livro, mas muitas. Da mesma maneira, não há uma única forma de publicar um livro (papel ou virtual? Edição completa ou impressão sob demanda? Por conta própria ou por uma editora?), e nem uma "fórmula de sucesso" para fazer seu livro chegar aos leitores.
Meu objetivo com o "A Bíblia do Escritor" não foi mostrar um caminho, mas vários. Quando dou uma visão geral sobre o processo de escrita, por exemplo, fiz questão de destacar os escritores que fazem muito sucesso dentro de cada processo:
Estes escritores são a prova de que não há uma forma "correta" de se escrever um livro, uma "fórmula do sucesso", ou algo "obrigatório" a ser seguido neste processo; e qualquer pessoa que diga o oposto deve ser desconsiderada como mal informada ou mal intencionada.
Quanto a mim, escrevo de uma forma diferente destas; o mais usual é que eu estruture o texto antes de escrever, mas já produzi pelo menos dois livros usando o método de "sentar e sair escrevendo". Já falei sobre isso em outros posts, mas posso aprofundar o assunto caso vocês se interessem.
Embora não haja uma "forma correta" de se escrever, ouso dizer que há, sim, alguns pontos que devem ser atingidos no resultado final: Os personagens precisam ser convincentes, coerentes e interessantes, o leitor precisa se importar com eles. O texto precisa ser escrito de forma a ser atrativo ao seu público alvo. A trama deve ser envolvente, o leitor precisa se interessar em descobrir "onde aquilo vai dar". E por aí vai.
Independente da forma que você escreva, e até mesmo do resultado que deseja atingir, há apenas uma certeza: O leitor precisa sentir prazer na escrita. E conseguir um texto que dê este efeito não "acontece por acaso", é necessário revisar muito, evoluir muito o texto desde a versão inicial. Não se iluda, só com esforço e dedicação é que se consegue este efeito.
 O que faço em "A Bíblia do Escritor" é basicamente isso: apresento ferramentas práticas para organizar a produção de um romance ou roteiro de longa metragem, indicando as vantagens de usar cada ferramenta e os prós e os contras de cada processo de escrita, de forma a você poder selecionar aquelas técnicas que têm o potencial de efetivamente melhorar seu método particular de trabalho.
E como estou sempre aprendendo, estou sempre aberto a ideias tanto para a segunda edição do livro quanto aqui para o blog. Até porque a melhor qualidade de qualquer profissional, em qualquer área, é ter a certeza de que sempre há o que aprender e estar aberto a isso.

E você, tem um processo particular de escrita? Comente e compartilhe com os colegas!


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